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Venda de US$ 3,3 bilhões da principal estatal brasileira

Rodrigo Peronti Por Rodrigo Peronti
28/06/2025 - 13:12

A privatização da Vale, realizada em 6 de maio de 1997, foi um marco na história econômica do Brasil. Este evento não foi apenas mais uma transação empresarial; ele levantou uma série de debates e polêmicas que ainda ressoam hoje. Com a venda do controle da Companhia Vale do Rio Doce, uma das principais estatais do país, o Brasil viu um capítulo importante de sua história tomando forma, cercado por tumultos e questionamentos.

Essa transação, avaliada em cerca de US$ 3,34 bilhões, era promovida como um passo necessário para modernizar a economia brasileira. No entanto, muitos chegaram a criticar a venda como um grande equívoco, afirmando que era como “vender um patrimônio nacional a preço de banana”. A história da privatização da Vale retrata um dia de batalhas na bolsa de valores, uma engenharia financeira complicada e um legado dividido: de um lado, uma empresa que despontou como gigante global; do outro, o lamento dos desastres socioambientais que a marcaram.

O cenário dos anos 90: por que o governo FHC decidiu vender a “joia da coroa”?

A decisão de privatizar a Vale foi o ápice do Programa Nacional de Desestatização, iniciado durante o governo Collor e ampliado na gestão de Fernando Henrique Cardoso. Alinhado com uma agenda neoliberal que ganhava força globalmente, o objetivo era diminuir o tamanho do Estado e atrair investimentos para revitalizar a indústria nacional.

Mas a Vale era um caso peculiar. Ao contrário de outras estatais que operavam no vermelho, a Companhia Vale do Rio Doce era uma gigante lucrativa no setor. O governo argumentava que, mesmo com os lucros, a administração privada tornaria a empresa mais ágil e competitiva, longe das amarras da burocracia estatal. Para a oposição, no entanto, tratava-se de uma venda desnecessária de um bem estratégico.

O leilão de 6 de maio de 1997

O leilão, realizado na Bolsa de Valores do Rio de Janeiro, se transformou em um dos dias mais tensos do mercado financeiro brasileiro. Do lado de fora, uma forte presença policial controlava manifestantes contra a privatização. Enquanto isso, no interior do prédio, advogados do governo enfrentavam uma batalha legal para derrubar liminares que tentavam barrar o pregão.

No final da jornada, o governo saiu vitorioso. Um leilão acirrado resultou no controle da maior mineradora da América Latina, com um desfecho que selou o futuro da empresa.

Um negócio bilionário: quem comprou e como pagou?

Durante o leilão, foi leiloado um bloco de 41,73% das ações com direito a voto, garantindo o controle da empresa. O lance vencedor partiu do Consórcio Brasil, liderado pela Companhia Siderúrgica Nacional (CSN), do empresário Benjamin Steinbruch.

O valor final foi de R$ 3,338 bilhões, equivalente a cerca de US$ 3,34 bilhões na época. Isso representou um ágio de quase 20% sobre o preço mínimo estabelecido pelo governo.

A polêmica do “preço de banana”: as críticas à avaliação da empresa

Uma das críticas mais intensas à privatização foi a alegação de que a Vale foi vendida a um preço injustamente baixo. Muitos opositores argumentaram que a avaliação não levou em conta as vastas reservas minerais da companhia, consideradas um patrimônio do país.

A forma de pagamento também despertou controvérsia. Parte do montante foi paga com “moedas podres”, ou seja, títulos da dívida pública que valiam muito menos no mercado, mas que o governo aceitou como pagamento. Para os críticos, isso significou que o valor real aportado nos cofres públicos foi muito menor do que o anunciado.

Lucros recordes e desastres socioambientais

Após a privatização, a Vale experimentou um crescimento notável. Com o “superciclo” das commodities e a demanda da China, a empresa se transformou numa potência global, multiplicando seu valor de mercado em mais de 3.500% e distribuindo bilhões em dividendos aos acionistas.

Entretanto, esse sucesso financeiro não vem sem seus aspectos sombrios. Para muitos críticos, a busca desenfreada por lucros levou a uma cultura que prioriza os resultados em detrimento da segurança. Dois desastres ambientais trágicos, o rompimento da barragem da Samarco em Mariana (MG) em 2015 e o colapso da barragem da Vale em Brumadinho (MG) em 2019, deixaram um rastro devastador, com centenas de vidas perdidas e consequências ambientais duradouras.

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